Movimento “Fora Arruda” quer impugnar novo governador Rogério Rosso
Ainda descontentes com a situação política do Distrito Federal, integrantes do Movimento Fora Arruda querem a impugnação da eleição
Ainda descontentes com a situação política do Distrito Federal, integrantes do “Movimento Fora Arruda e Toda Máfia” querem a impugnação da eleição indireta realizada na Câmara Legislativa do DF. No pleito, no qual votaram os 23 deputados distritais, Rogério Rosso (PMDB) saiu vitorioso. O movimento, formado basicamente por estudantes, movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos, exige também que a população tenha acesso a todos os vídeos do inquérito da operação Caixa de Pandora e a demissão do coronel da Polícia Militar Silva Filho, comandante da operação que conteve violentamente o movimento em frente ao palácio do governo local, no fim do ano passado.
Em entrevista ao Contas Abertas (CA), o movimento alega que “está sofrendo forte repressão por parte da máquina estatal devido a suas ações serem direcionadas a figuras políticas influentes de Brasília”. Quanto à critica de que não agiram diante de outros escândalos como o do mensalão do PT, por exemplo, o grupo se defende: “somos contra qualquer tipo de mensalão, seja do PT ou do DEM, mas nossa luta não considera a corrupção como algo pontual, mas sim como um problema estrutural do capitalismo”.
Confira a entrevista na íntegra:
CA – Qual a programação do movimento “Fora Arruda e Toda a Máfia” nos próximos dias?
Nos próximos dias não temos ainda uma agenda fechada de ações. Elas serão decididas nas próximas reuniões, mas irão em direção ao cumprimento das pautas de reivindicações criadas na ocupação (inauguração popular) da nova Câmara Legislativa do DF.
As nossas pautas são: impugnação da eleição indireta de Rogério Rosso; realização de auditoria das obras do prédio da nova Câmara Legislativa; auditoria das obras da nova rodoviária; cancelamento do contrato do atual passe livre com a empresa Fácil; anulação do atual Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT); cumprimento da ação cautelar que impede as obras no Setor Noroeste [novo bairro habitacional em Brasília criado na gestão Arruda]; aprofundamento das investigações e punição dos corruptos; acesso da população a todos os vídeos do inquérito da Caixa de Pandora; e demissão do Coronel Silva Filho da Polícia Militar.
CA – Como as quedas de Arruda (ex-governador) e Paulo Octávio (ex-vice-governador) foram vistas pelo movimento? Foi uma vitória para vocês?
A prisão de Arruda e o afastamento de Paulo Octávio foram vitórias importantes conquistadas em momentos históricos como a ocupação da Câmara Legislativa, as mobilizações de rua e a criação de comitês Fora Arruda nas escolas secundaristas. Porém, somente o afastamento de figuras centrais da estrutura política neoliberal não é sinal de vitória completa para o movimento.
Nossos objetivos vão muito além da troca de personagens, que são pré-determinados pelos financiadores de campanha. Pretendemos a construção de uma nova política. Uma política de fato democrática, que expresse a vontade da maioria e não de elites econômicas. A queda dos mensaleiros é uma etapa importante em nosso projeto por mostrar para quem desacreditou na política que o único caminho para reestruturá-la também é político.
A reestruturação deve passar pela criação de mecanismos contra a corrupção que impeçam a ação de corruptores e corrompidos e caso eles e elas roubem dinheiro público esses mesmos mecanismos precisam ser eficientes na sua punição. O grande ganho na queda dessas figuras é a construção na consciência dos trabalhadores de que eles podem mudar a realidade. O poder é do povo, para o povo.
CA – O movimento tem simpatia por algum partido político ou segue tentando ser apartidário?
O movimento nunca foi apartidário. Ele é suprapartidário, ou seja, reúne vários grupos políticos diferentes lutando por uma causa em comum sem, contudo, haver aparelhamento do movimento para um projeto político de um grupo específico.
Entendemos que o caráter popular e não burocrático deve ser conservado na busca de uma organização que expresse a vontade de promover a democracia direta. Não possuímos líderes nem representantes que exerçam nossos poderes por nós. Cada pessoa tem o mesmo peso nas decisões. Nos organizamos de forma horizontal, o que se contrapõe aos poderes instituídos que são verticalizados e concentradores de poder em pequenos grupos econômicos. Nossa composição é bastante diversa: partidos políticos, movimentos sociais, grupos autônomos, sindicatos, estudantes e pessoas sem ligações com algum grupo específico. Todos eles participam ativamente do movimento.
CA – Qual a postura do movimento em relação à eleição do governador Rogério Rosso?
Essa eleição já nasceu como um fracasso democrático. A população não escolheu quem a representaria para a execução do poder que dela emana. O movimento, inclusive, tem uma forte crítica contra a noção de representatividade. Nós lutamos para que a democracia realize-se de forma direta.
Eleição indireta é, por excelência, antidemocrática, e nos remete às práticas da ditadura militar. Dos 13 deputados que votaram neste cidadão [Rosso], oito são citados diretamente no escândalo. Geraldo Naves [deputado distrital preso por atrapalhar as investigações da Caixa de Pandora] saiu diretamente da Papuda [presídio] para votar no Rosso. Ele é a consecução da política destruidora das grandes empreiteiras e dos empresários. Vem atuando no governo desde Joaquim Roriz (ex-governador do DF), passando por escândalos como o da Codeplan. Não se trata apenas de ser um candidato inadequado. O processo é totalmente ilegítimo.
O movimento não reconhece Rosso governador do DF. Uma das pautas de nossa luta, atualmente, como já foi dito anteriormente, é pela impugnação das eleições indiretas.
CA – O movimento é a favor da intervenção federal no Distrito Federal?
O movimento não tem uma posição em relação a esse assunto. Não somos nem contra nem a favor da intervenção direta. Somos favoráveis à criação do poder popular [ação popular de grande escala, revolucionária, materializado no governo socialista dos trabalhadores].
CA – Qual a expectativa do movimento quanto às eleições no DF neste ano?
O candidato que sai à frente na disputa é Roriz. O que representa um retrocesso muito grande na política do DF. Nós lutaremos contra a eleição de Roriz.
CA – O movimento apoiará algum candidato ou partido nas eleições de 2010 para o governo do DF?
Não apoiaremos nenhum candidato nem partido político.
CA – PT e PMDB, antigos rivais ferrenhos da política de Brasília, podem lançar uma chapa juntos na eleição deste ano para a campanha ao governo do DF. Qual a postura do Fora Arruda e Toda a Máfia diante desse possível movimento entre partidos “inimigos” históricos?
As jogadas realizadas pelos participantes da disputa política eleitoral não representam nenhuma possibilidade de mudança real no nível que desejamos. Essas alianças ditas pragmáticas apenas alimentam todo o processo contra o qual lutamos.
CA – O movimento recomenda à população que vote em alguém no pleito deste ano, seja em cargos minoritários ou majoritários?
Não. Nossa função não é indicar em quem as pessoas devem ou não votar. Nós lutamos para que a população exerça a política por ela mesma e não a deixe na mão de políticos profissionais. É preciso perceber que a política vai muito além do processo eleitoral. Ela é cotidiana, feita em todos os lugares e travada em todas as relações entre pessoas, grupos ou instituições.
CA – Se, eventualmente, surgir algum escândalo em nível federal que atinja o governo Lula, por exemplo, o movimento pretende continuar ativo e fazendo manifestações em prol da ética e da moralidade?
Com certeza. Somos contra qualquer tipo de mensalão, seja do PT ou DEM. Porém, nossa luta não considera a corrupção como algo pontual, mas sim como um problema estrutural do capitalismo. Lutamos a favor da construção coletiva de uma outra política estruturada em termos justos e igualitários e o mais importante: lutamos pela construção do poder popular.
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