Policial é preso na maior operação contra tráfico de drogas em São Paulo
Aconteceu esta semana, em São Paulo, aquela que a própria polícia chama de a maior operação contra o tráfico de drogas
Aconteceu esta semana, em São Paulo, aquela que a própria polícia chama de a maior operação contra o tráfico de drogas já feita no estado. O alvo, uma pequena cidade do interior, que deixou de ser um lugar pacato quando cidadãos acima de qualquer suspeita viraram traficantes.
Descalça, sem tomar banho, a mulher drogada se deita na calçada e delira. Estamos em Guararapes, no oeste paulista, cidade de 29 mil habitantes. As principais fontes de renda da região são agricultura e pecuária. Segundo a polícia, imagens assim se tornaram frequentes de dois anos para cá. Foi quando pessoas que estavam acima de qualquer suspeita se tornaram traficantes.
O Fantástico passou a semana toda em Guararapes. Percorremos locais que, de acordo com as investigações, são dominados pelo tráfico. Em um, à noite, o movimento de pessoas e de carros é intenso. Um bar, segundo a polícia, também é um ponto de venda de drogas. O dono é Rodrigo Lima, de 25 anos, apontado como um dos traficantes da cidade.
Já uma imagem obtida com exclusividade pelo Fantástico é do acusado de ser o chefe da maior quadrilha de Guararapes. Fábio Moreira, de 24 anos, foi flagrado em conversas telefônicas controlando o tráfico de cocaína.
- Está tendo um pó aí ou não?
- Eu to zoado de cheirar, mano.
- Ta certo mesmo, veio. É isso mesmo. O negócio é nóis lucrar.
Fábio Moreira é agente penitenciário de uma cadeia em Valparaíso, vizinho de Guararapes. Alegando depressão, está afastado do serviço há dois meses, recebendo mais de R$ 3 mil de salário do estado.
Na segunda-feira passada, ele foi flagrado bem de saúde e trabalhando. Fábio Moreira é dono de uma escola preparatória para concursos públicos. Ele mesmo ensina português.
Segundo a polícia, o acusado se afastou do trabalho de carcereiro para ter mais tempo para a venda de drogas. Ele ainda é suspeito de fazer parte da facção criminosa que age dentro e fora dos presídios paulistas.
“Estamos surpresos com a conduta, com a atuação dele. É uma pessoa que goza de bom conceito na comunidade”, aponta o delegado Ely Vieira de Faria.
Todos os dias, pelo um roubo é registrado na única delegacia da cidade. Devido ao tráfico, um clima de terror se instalou na até então pacata Guararapes.
- Se eu te trombar na rua, mano, vai ser daquele jeito, mano. Porque eu vou te matar, mano.
- Não, bicho. Pelo amor de Deus. Não faz isso comigo.
A investigação durou um ano. Durante todo esse tempo, mais de 50 linhas telefônicas de Guararapes foram monitoradas pela Polícia Civil. As gravações revelaram que nove quadrilhas de traficantes agiam na cidade. Eles vendiam cocaína, maconha e principalmente crack.
Essa semana, para comprar uma pedra de crack, um homem roubou o celular da aposentada Ana Barone Garcia, de 65 anos. “Fiquei com medo, quase desmaiei”, conta a vítima.
Em janeiro, uma senhora perdeu o filho de 17 anos. Ele foi morto com golpes de machado. O motivo, segundo a mãe, foi dívida de drogas: “A droga, infelizmente, arrastou meu filho para o cemitério. Infelizmente, o tráfico chegou na cidade”.
A prefeitura diz que está investindo no tratamento de viciados em drogas.
“O município fechou convênio com outros municípios da região na internação desses jovens. Eles não ficam abandonados. O município acolhe quando há essa procura”, afirma a coordenadora de assistência social de Guararapes Juliana Braga.
Madrugada de quarta-feira e mais de 200 policiais se preparam para a maior operação contra o tráfico já realizada no estado, segundo a secretaria de segurança. Às 6h, os policiais se preparam para cercar a pequena cidade de Guararapes, que fica a 30 quilômetros de Araçatuba. Os policiais cumprem 53 mandados de prisão.
“Estamos surpresos de ver tanta gente presa. Vemos pela televisão. Pessoalmente, nunca”, comenta o empresário Éder Riguete.
Entre os presos, está o professor Fábio Moreira, suspeito de chefiar a maior quadrilha de Guararapes: “Não sei do que se trata mas eu não trafico”.
Rodrigo Lima, acusado de ser traficante, também foi preso. Alegou ser comerciante e pediu proteção divina: “Nem vai acontecer injustiça comigo em nenhum momento, Pai. Só isso que eu te peço”.
A principal prova contra ele são telefonemas em que Rodrigo Lima negocia um quilo de cocaína por R$ 16 mil.
- Rodrigo?
- Oi?
- E essa fita aí? É boa?
- É.
- Melhor do que aquelas que você me vendeu?
- É.
- Que preço está vendendo?
- R$ 16 mil.
Vinte suspeitos, entre eles advogados e comerciantes, ainda estão sendo investigados e podem ser presos a qualquer momento.
“Eu nunca imaginava que aconteceria o que está acontecendo nos dias de hoje, a cidade dessa maneira. A droga domina tudo”, lamenta a mãe do jovem morto.
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